aCena Recifense bate um papo com Makeda (PE)

Makeda é DJ, produtora musical, produtora cultural, socióloga e coprodutora da coletiva MaddaM Music!


1. Como nasceu seu gosto pela música e o que te motivou a se iniciar no meio artístico?


Eu venho de uma família com musicistas. Minha irmãs tocam piano e flauta transversa, estudaram música no Conservatório Pernambucano de Música e também na UFPE. Por incentivo da minha mãe, eu também entrei no Conservatório, com 10, 12 anos de idade, e me dediquei ao violino por cerca de 10 anos, além, é claro, de ter contato com disciplinas que fazem parte dessa formação, como expressão corporal, canto e coral e teoria musical. Integrei algumas bandas ao longo desse tempo, mas, posteriormente, precisei me distanciar um pouco da música, pra me dedicar exclusivamente aos meus estudos em Sociologia, formação que tive na UFPE, também por 10 anos. 

Mas aí, em 2017, um novo contexto começou a me ser apresentado, que é o universo da música eletrônica. Nesse ano, eu e Nadejda, fundamos a MaddaM Music e eu comecei a trabalhar mais diretamente com produção cultural e a ter contato com o trabalho de DJs numa cena ainda emergente. 

Como eu já andava de mãos dadas com a música, comecei a experimentar tocar com outro instrumento, com outra ferramenta que não era o violino, mas sim a controladora de DJ e a pesquisar referências que tivessem a ver com a identidade sonora que eu gostaria de apresentar, aquilo que me dava o combustível necessário pra finalmente me colocar como artista nesse meio. Essa busca foi compartilhada com uma amiga, Cecília Godoi, que topou construir o projeto Nubian Queen junto comigo. E aí, em 2019, tocamos pela primeira vez como duo no Festival Coquetel Molotov, evento no qual eu tocaria novamente, dessa vez, como Makeda, em 2022.

A partir daí, não parei mais de tocar e cada vez mais venho buscando essa imersão nos processos artísticos criativos, no intuito de me conectar sempre com a música, com a arte, com as pessoas, com minha ancestralidade e com tudo aquilo que é capaz de fornecer sentimentos de pertencimento, de liberdade, e de transmitir ideias, emoções e visões outras de mundo que de fato nos transforme positivamente como sujeites. 



2. Quais são as principais referências e vertentes que atravessam suas pesquisas musicais? O que podemos esperar de uma pista comandada por Makeda?


Bom, eu venho de uma área como pesquisadora, então, isso formou bastante a forma como eu construo meus trabalhos, seja na arte ou não, com esse modus operandi que segue geralmente procedimentos e princípios pro mergulho na área. Eu me interesso por música em geral e organizo essa pesquisa a partir de alguns procedimentos. Minha pesquisa musical pessoal é muito ampla e passeia por estéticas, sons, raízes e histórias muito diferentes, que vão desde musicalidades de tradição popular, que fazem uso de instrumentos acústicos, até sonoridades eletrônicas, que têm como base o uso de sintetizadores e outros equipamentos.

Porém, como DJ e produtora musical, minhas pesquisas musicais navegam por sonoridades africanas e afrodiaspóricas, como também estilos da música eletrônica do Sul Global. Eu pesquiso bastante Afro House - que é uma subvertente da House Music - com raízes no continente africano, vindo direto da África do Sul. Aliás, se Makeda vai tocar, pode ter certeza que vai ter Afro House. Eu busco muito aquelas tracks que são marcadas por elementos percussivos poderosos e batidas contínuas, nas quais os tambores criam quase que um transe. O som como condutor do axé, o tambor como forma de realização. Para além desse estilo, pesquiso também o Afro Tech, que une essa percussividade, digamos assim, ao Techno, gênero que é um grande guarda-chuva dentro do universo da música eletrônica. E, além disso, invisto bastante tempo pesquisando o Kuduro, um movimento cultural que mistura batidas eletrônicas com ritmos tradicionais angolanos. O Kuduro nasceu em Luanda, capital de Angola, em 1990, e é um ritmo acelerado, marcado por movimentos com as pernas e muitas vezes acrobáticos. Isso para citar apenas três estilos. Essas pesquisas pra mim se apresentam como movimento contra-hegemônico decolonial.



3. Para além de DJ, você também atua como produtora musical, tendo lançado uma série de trabalhos em sua conta no Soundcloud. Dessa forma, como é produzir suas próprias músicas e produções e quais são suas partes favoritas deste processo?


Recentemente, experimentei unir esses elementos percussivos que fazem parte da minha pesquisa sonora, e que já movimentam meu corpo, que me estimulam ao movimento, com discursos que têm um teor de enfrentamento e questionamento aos poderes hegemônicos. Foi assim que juntei um Afro House com um trecho do discurso da Deputada Federal Erika Hilton, na 28ª Parada do Orgulho LGBT+, em São Paulo. Também em outro momento uni o Afro House com a potência que é a artista Urias, na música Diaba. Foram experiências muito positivas, me senti muito conectada com a energia que essas junções trouxeram. Porém, o que vocês podem esperar de mim como produtora musical ainda está por vir! Tenho estudado bastante. Nesse momento mesmo, estou realizando mais um curso de produção musical, tendo em vista ter as ferramentas necessárias para dar esse passo e me conectar mais intimamente com minhas ideias, minha identidade e meus processos criativos, com aquilo que eu quero expressar.



4. Você é uma das organizadoras da coletiva artística MaddaM Music. Nos conte um pouco sobre o que motivou a criação da mesma e qual o papel da coletiva no cenário musical pernambucano?


A MaddaM Music é um selo que reúne DJs, VJs e produtoras musicais com o objetivo de estimular o protagonismo feminino e LGBT+ no campo da música eletrônica, realizando diversas atividades de disseminação de conteúdo cultural, capacitação teórica e técnica para mulheres cis e trans que desejam atuar nesse campo, além de produzirmos inúmeros eventos na área artística. Já produzimos também a Techtrônica, programa veiculado por duas temporadas na Rádio pública da cidade - a Rádio Frei Caneca FM - 101.5 - que tinha um caráter informativo e formativo, apresentando temas, curiosidades, estilos musicais, entrevistas e histórias sobre o universo da música eletrônica.

Desde 2017, eu e Nadejda realizamos esse trabalho de forma independente, porque acreditamos no potencial transformador dessa iniciativa. Muitas DJs que hoje tem mais espaço na cena musical da cidade já passaram de alguma forma pela MaddaM e conseguiram dar um passo adiante na construção das suas carreiras e trajetórias individuais. Isso é muito rico. Considero a MaddaM um grande catalisador que não somente enxerga essas potências, mas que impulsiona essa energia pro futuro. Inclusive, nesse mês de julho, a MaddaM está fazendo 7 anos e teremos várias atividades ao longo do mês. Um dos nossos carro-chefe, que tá no forno pra rolar esse mês, é o projeto MaddaM Music LAB, que é um verdadeiro laboratório que envolve experiências, aprendizados e trocas. Fiquem atentes que já já a gente solta mais informações.



5. Você vem ocupando cada vez mais espaços no cenário musical de Recife e região, protagonizando a line-up de diversas festas e festivais. Dessa forma, como foi se apresentar no RecBeat 2023 e quais são as expectativas para sua participação no Festival Turá 2024?


Eu já me apresentei em festivais como Coquetel Molotov, Mostra Play The Movie, Festival Guaiamum Treloso Rural, Festival RecBeat, Festival Boikot, Festival Rec’n’Play, Expo Preta, 15 anos do Som na Rural no Porto Musical e também com a Rural no Carnaval de Pernambuco, como também em várias festas da cena local de música eletrônica, como a festa Batidão, da Terça do Vinil, e Jorra, da Golarrolê.

Além disso, já acompanhei artistas consagradas da nossa cultura, nomes como Una e Jéssica Caitano, assim como uma das expoentes do Slam Pernambucano: a artista Bell Puã.

Eu tenho muita gratidão em ter tido essas experiências, até porque é muito difícil sobreviver nesse meio quando você precisa dar um passo de cada vez, e por aí já tem coisas acontecendo com cartas marcadas. Ocupar mais e mais lugares como esses nunca foi fácil, cada nova experiência dessas foi com suor, trabalho e muita dedicação, mas elas me deram mais combustível pra continuar. E me aguardem no Festival Turá!! Espero continuar fazendo meu trabalho sempre com esse brilho inabalável, porque eu acredito na música. Quero ver todes vocês lá no front, pra gente curtir essa energia linda que a arte proporciona, ao lado de artistas gigantes. Não vejo a hora desse dia chegar.



6. O que podemos esperar do futuro de Makeda? Quais são as metas, planos e desejos que podem ser compartilhados conosco?


Bom, meus projetos futuros com certeza envolvem trazer algo autoral pra vocês. Estou trabalhando nisso, me jogando em processos criativos e o que posso dizer é que quero entregar algo livre do status quo, algo que realmente signifique pra mim e pra vocês.


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