aCena Recifense bate um papo com Ruby Nox


Ocupando pistas de festas e boates, telas do cinema e palcos de teatro, a drag queen Ruby Nox se consagrada como uma das maiores aristas do gênero no Recife, recusando-se a limitar sua arte de anos de estrada. Confira abaixo o bate-papo exclusivo que tivemos com a queen!


Como a arte drag surgiu em sua vida e como nasceu Ruby Nox?

R: "Desde criança eu sempre fui muito artista e minha mãe incentivou muito isso em mim. Um dos meus primeiros contatos mais sérios foi com a dança, ainda quando morava em Carnaíba, minha cidade de origem, dançava dança popular no grupo de dança da escola municipal e minha mãe era coreografa quase sempre. Vim pra Recife em 2009, até queria continuar na carreira da dança, principalmente como passista de frevo, que era uma das minhas danças populares favoritas junto com o xaxado, mas acabei descobrindo outras possibilidades, nessa fase da adolescência eu era do fã club de Rihanna, que foi o local onde eu pude usar minhas habilidades de dança, coreografei o flashmob que se tornou lenda no marco zero, junto com o dos da clubs de Lady Gaga e Beyoncé, e esses registros ainda estão no YouTube 😂😂😂 Foi também nessa época que conheci o que de fato era a arte drag, atrás de uma amiga que me mostrou um episódio da segunda temporada do Drag Race, eu fiquei tão impactado com Raven que eu comecei a pesquisar mais sobre ela e daí surgiu minha vontade de ser drag queen. Esse episódio foi em 2010 e Ruby nasceu "de verdade" em outubro de 2013, nesse tempo eu testei maquiagem, tentei fazer figurino, estudei sobre as drags e me preocupei em tornar esse desejo real, então fiz meu primeiro show na boate MKB, junto com Kalyndra, que era uma amiga do fã club de Rihanna e que também estava começando a fazer drag. Um detalhe que nessa época eu era Ruby Aziza, que foi o nome que escolhi pra mim... Ruby, por que eu achava lindo o nome e adorava a novela quando era criança, sempre me passou a vibe sexy que eu tenho enquanto persona, e o Aziza por que significa preciosa (segundo o Google), sendo que tempos depois eu fui "adotada" por uma drag veterana daqui chamada Whitney D'Castro, que viu meu potencial e me deu seu sobrenome, então comecei a usar o Ruby D'Castro. Tempos depois meus melhores amigos começaram a fazer drag também e juntos criamos um trio, foi por conta dele que surgiu o NOX, éramos o 3 NOX, ambas tinham nomes relacionados a pedras (Ruby, Amber e Amonite) e todas com o sobrenome Nox. Nos anos de 2015/2016 que foi o "boom" da nova geração de drags nós eramos destaque, abrimos show pra Alyssa Edwards na metrópole, participamos do Recifest, entre outros eventos. Mas em paralelo ao grupo eu sempre busquei ocupar os espaços e criar uma carreira para mim e consegui conquistar um legado para esse sobrenome."


Você acredita que ter nascido/sido criado no sertão pernambucano influenciou algo em sua arte? Se sim, como?

R: "Com certeza, eu tenho muito orgulho da minha origem, sempre gosto de reforçar de onde vim, até porque minha cidade respira arte, é conhecida por ser a cidade dos músicos e dos poetas, infelizmente não preenchi o requisito pra nenhuma dessas duas áreas 😂 mas acrescentei mais um destaque artístico a minha terra, disso tenho certeza. Por mais que muitas das referências visuais que eu carrego não sejam do sertão, eu creio que eles estão lá de forma enraizadas e um dos destaques dessa relação é minha paixão pelas artes circenses, já que o circo sempre foi um fascínio pra mim na infância... Eu era louca pra fugir com o circo, não fugi, mas hoje consegui acrescer vários elementos das artes circenses no meu trabalho como dragqueen."


Quais são os principais elementos explorados em suas performances e o que alguém que nunca assistiu você no palco pode esperar de uma apresentação sua?

R: "Eu digo que meu trabalho com drag é de camaleão, você pode ver vários estilos de drags em mim, por que eu me permiti a não criar uma personagem com limites. Mas entretanto, se fosse comparar meu trabalho a uma grande árvore, eu diria que o centro dela tem características muito específicas, que são a sensualidade, o glamour e o erótico, que completam minha principal marca, que é o burlesco, que é uma arte subjugada, mas que tem muitas camadas históricas tanto fora como dentro do Brasil."


Além de ser conhecida por suas performances, você também já esteve diversas vezes no teatro, mais recentemente com o espetáculo "Drag Ataque". Conte um pouco sobre como foi essa experiência e como é ocupar espaços como esse enquanto uma drag queen.

R: "Eu adoro teatro, infelizmente não tive possibilidades de me dedicar na infância, mas a arte drag me permitiu me descobrir ator e me possibilitou vivenciar outras personagens nos palcos. O primeiro espetáculo de teatro que fiz eu vivi Linda Batista, uma das grandes rainhas do rádio e devo uma menção honrosa a um grande amigo e dragqueen que me possibilitou esse momento, Elvira Terremoto também Jefferson Nascimento, e sem sombra de dúvidas Chopelly Santos da AMOTRANS, que dirigia e produzia o espetáculo. De lá pra cá fiz várias peças, atuando como Elis Regina junto a AMOTRANS e fiz o curso técnico em teatro no ETE Alfredo Freyre, que também me possibilitou atuar fora da arte transformista. Nós últimos anos também tive o prazer de atuar no audiovisual, esse ano estreou o curta QUANDO VOCÊ VEM ME VISITAR? que fiz parte, além de outros projetos que ainda estão para lançar. Tanto no teatro como no cinema, eu fico extremamente feliz de levar meu trabalho como dragqueen, acho que já passamos da época de achar que drag só se encaixa nas boates, hoje conseguimos enxergar muita potência nessa arte, permitindo fluir com tantas outras áreas."


Já no audiovisual, você participou recentemente do curta metragem "Quando Você Vem me Visitar", no qual foi a protagonista. Nos conte como foi essa experiência e como você se sente ao ver sua arte imortalizada através do audiovisual?

R: "Me ver na tela do cinema foi uma sensação estranha na verdade, eu espera ficar emocionado ou algo do tipo, mas assistindo parecia que aquele lugar era comum pra mim, não sei se por eu já ter sonhado tanto com isso que já era uma realidade no meu inconsciente, não sei, as vezes eu só consigo reagir de forma estranha a coisas importantes, e sem dúvidas foi um momento muito importante pra mim. Fico muito feliz que Henrique Arruda, que é o diretor por trás do curta e da Filmes de Marte, me abraçou nos seus trabalhos e viu muita potência nele. Logo logo vocês vieram outros trabalhos na telona comigo e espero que seja mais um dos meus caminhos no futuro."


Existe algo que a sua drag ainda não explorou, mas que você sente vontade de explorar, ou ao menos de explorar de forma mais intensa?

R: "Minha mente criativa vive louca para coisas novas, então sempre acho que não fiz de tudo e posso fazer mais. Um dos meus grandes sonhos é montar espetáculos grandes, que resgatem o tempo do teatro de revista. Também queria muito conseguir vivenciar mais o circo e participar de fato de uma trupe. Viver em Paris e fazer parte dos cabarés e realizar espetáculos de burlesco. Talvez voltar pra Carnaíba e virar secretaria de cultura... Enfim, são muito sonhos 🥲"


O que podemos esperar do futuro de Ruby Nox? Quais são os planos, metas e projetos que podem ser compartilhados com o público?

R: "Não poderia deixar de dizer que é participar do Drag Race, afinal foi por conta do programa que me tornei drag e me tornei também grande fã da arte, então seria um fechamento de uma história pra mim. Agora com a franquia brasileira o sonho se torna mais palpável, quem sabe eu consiga nas próximas temporadas. Fora isso, por mais que eu todo dia pense que já fiz o meu máximo, pretendo continuar fazendo o que faço, porque sei que o palco e a arte é o meu lugar e por mais que eu tenha que me permitir fazer outras coisas para viver, a arte sempre será o que me move."

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