aCena Recifense entrevista Siba Puri

 


1. De que forma a arte surgiu na sua vida e como nasceu a decisão de ser artista?

R: "Essa vontade já vinha desde a infância. Eu não sei o momento que eu pensei: "Ah, vou ser artista", porque na minha cabeça já fazia parte de mim, desde que eu me entendo por gente. Desde muito nova já tinha muita vontade de tocar bateria, tocar percussão, ficava batucando na mesa, e aí a minha mãe percebeu um talento e me colocou no grupo de percussão, lá no meu bairro de Rio Doce. Então eu tocava maracatu e tal e isso (a arte) já estava desde a infância em mim e continuou na adolescência também. Sempre ficava fazendo música, com banda, mas aquela banda de criança, sabe? Que é mais sobre brincadeira em sala de aula, essas coisas, mas sempre fazendo música e compondo também. Com 17 anos eu fiz a faculdade de turismo, mas nunca abandonei a música. Fiz a faculdade, mas em paralelo a isso eu tinha banda. Comecei a tocar profissionalmente com 17 e 18 anos na primeira banda que eu tive, onde eu tocava um pouco de tudo, mas tinha muito reggae, muito rock, muito MPB. Então isso me acompanhou desde sempre e também com as influências que eu tinha na minha família, como é o caso da minha avó. Desde muito nova ela também escrevia poesia, escrevia música. O meu avô, ele sempre colocava Gilberto Gil e vários outros artistas nacionais, ele colocava o DVD pra assistir. Então, todo domingo, eu ia para a casa do meu avô e já era certo que ia ser um enxurrada de DVD, um atrás do outro. Então, eu ficava olhando aquilo ali, achando maravilhoso, querendo muito um dia viver disso. E ainda tem a minha tia, ela foi cantora durante muito tempo, profissional no Rio de Janeiro, trabalhou com vários artistas. Então, isso já estava de influência mesmo na minha vida."


2. Como você acredita que sua ancestralidade e vivência enquanto mulher indígena influenciam a sua arte?

R: "Influencia diretamente na minha arte porque, para nós indígenas, a arte não está separada do ser. Então acaba que a gente se expressa de forma artística no dia a dia. Todo mundo é artista, todo mundo faz arte, a diferença é que uns vivem disso, ganham dinheiro com isso, outros não, mas a natureza é a própria arte, então, existem várias artes. Nesse sentido eu acredito que você expressa na arte aquilo que você é. Então, eu sou uma mulher indígena, não tem como eu expressar outra coisa na minha arte, mesmo que eu não fale sobre ser indígena. Posso falar sobre qualquer outra coisa, mas sempre vai ser uma mulher indígena fazendo isso, né? E aí, a partir da minha vivência do que eu sou, eu expresso a arte de uma determinada forma, com determinada estética, enfim. Mas falando diretamente sobre o meu trabalho, nessa influência é muito forte porque assim, eu sempre trabalhei com música, como eu disse, mas eu não evidenciava, apesar de ter os elementos lá, mas eu não evidenciava a minha identidade ali. E aí quando foi em 2017 para 2018 eu tive um sonho com os meus ancestrais que diziam que eu tinha que cantar sobre nossa luta. Aí foi quando eu comecei a cantar Luta Mesmo Indígena. No sonho eles falaram: "a partir disso nós vamos nos aproximar cada vez mais de você". E aí foi através da minha arte que eu comecei a intensificar meu processo de retomada que já vem desde a infância, porque eu sempre soube que era indígena, minha família, mas era aquela coisa mais voltada para o racial, para o cultural dentro da família, mas não era tão político, eu estava afastada do meu povo, então. Meu povo foi dado como instinto para mim, na minha cabeça. Eu era descendente de um povo indígena que nem mais existia, mas aí a partir da minha arte, quando eu comecei a cantar luta, quando eu comecei a cantar a minha história, eu fui conhecendo outros puris e aí fui me engajando mais nessa retomada política a partir disso, porque eles foram chegando até mim e aí eu fui conhecendo um conhecendo outro, e eu também fui até eles e aí acaba que esse meu processo de desenvolvimento do meu trabalho artístico está muito a outra lado com a minha retomada."


3. Como você descreve "Música Indígena Contemporânea" e os gêneros Dub Originário e Reggae Indígena, dos quais você é pioneira?

R: "A música indígena contemporânea é um movimento que vem crescendo e que vem quebrar estereótipos. A gente tem os nossos cantos tradicionais, a música ancestral, e a música contemporânea vem pegar essa arte ancestral unindo com ritmos de outras culturas, ritmos contemporâneos, ritmos de outros lugares. Então, por exemplo, tem músicas que misturam toré com rock, cantos sagrados de determinado povo e música eletrônica. Tem a parenta Joenia Ticuna, que tem os cantos tradicionais do povo dela em parceria com um DJ indígena também. Eles fizeram uma música eletrônica. Então, isso é música indígena contemporânea, você unir o ancestral e o contemporâneo não só na questão da mensagem, mas na questão também da musicalidade. E a questão do reggae indígena é justamente isso, é uma vertente dentro da música indígena contemporânea, porque a música indígena contemporânea não define ritmos, tal coisa com tal coisa, não. É sobre essa ideia de misturar vários ritmos de outras culturas com a música ancestral. Dentro da música indígena contemporânea, eu desenvolvo o reggae indígena. O reggae é muito voltado pra questão política, espiritual, que tem tudo a ver com a nossa luta. E aí eu pego esse ritmo, que já é um ritmo da minha vivência mesmo, e trago pra minha vivência enquanto indígena. Eu uno essas duas vivências dentro de mim e acaba sendo uma vertente da música indígena contemporânea, como também é o caso do dub originário. A gente mistura, por exemplo, flauta do caboclinho, que também pode ser entendido como música indígena, com reggae, ao invés de colocar um metal, um trompete, um trombone, que é que geralmente se tem no reggae, colocar essa flauta. Então essa é um exemplo de como é que funciona o reggae indígena."


4. Um de seus últimos lançamentos principais foi o EP "DESCARAVELE". Conte um pouco sobre o processo de produção do mesmo e o que ele representa em sua carreira.

R: "Descaravele é um termo que eu ouvi na boca da parenta Aline Caiapó, que é uma grande amiga, uma grande irmã e também idealizadora e uma pensadora indígena do movimento Wayrakuna, que é um movimento plurinacional de indígenas mulheres, do qual eu também faço parte. Numa conversa com ela sobre esse movimento, ela falou "nós precisamos descaraveleizar nosso pensamento, nossa forma de ser". Então, a gente precisa arrancar de nós as caravelas, não só de nós enquanto pessoa, mas enquanto sociedade. Isso é decolonizar. Então eu gostei muito desse termo. Eu já tinho algumas músicas que eu tinha escrito em momentos diferentes e já estava afim de lançar. Porém a gente sabe que para gente lançar um trabalho, não é muito fácil, a gente precisa de dinheiro, né? Tudo com música é muito difícil. Mas a gente descaravelizou nessa produção desse EP. A gente descaravelizou porque a gente fez uma parceria, velho. Todo mundo que participou dos Descaravelle não recebeu dinheiro, foi na parceria, foi no acreditar, porque senão a coisa não ia andar, né? Aí veio a Aiporã, que fez a arte, que é uma artista do povo Ariú. Aí veio Joyce, que é fulniô, e colaborou com a parte da mídia social. Aiporã foi ilustradora. Joyce foi a pessoa que fez o design ali com a ilustração e me ajudou na parte da mídia. Também gravou no celular visualizer para a gente colocar nas músicas. Lobo, que é um produtor musical lá do IPSEP, também colaborou, trazendo a produção dele nas músicas "Chegou a Hora", "As Lobas Se Lambem" e "Voz Sagrada". Já música "Não Toque No Meu Cocar" foi uma parceria entre eu, Lobo e Benki, da Boogarins, que foi quem fez a produção musical. A gente fez uma nova versão de "Não Toque No Meu Cocar", o primeiro bregafunk indígena e o primeiro bregafunk em língua indígena feito aqui no país. Foi muito massa, essa produção em específico de "Não Toque No Meu Cocar" foi através da Incubadora do Coquetel Molotov. Eles abriram um edital e eu coloquei essa música. Fui aprovada e a gente fez. Então é um trabalho cheio de colaborações. É justamente esse sentido de descaravelizar e de unir forças para botar a música indígena contemporânea na pista, o que é uma batalha, mas a gente tá vencendo."


5. Recentemente você foi selecionada como uma das 5 revelações da Incubadora Musical do Recife. Como é ver seu trabalho ganhando tal reconhecimento e como você enxerga a importância de iniciativas como essa?

R: "Eu fiquei muito feliz em ser aprovada pela Incubadora porque já admiro os projetos que a galera do Coquetel Molotov bota na pista fortalecendo a cena autoral de Pernambuco. Eu também já gostava muito de Boogaris e fiquei muito feliz mesmo de ver que estou no caminho certo já que pessoas e trabalhos que eu admiro estão me vendo e estão valorizando. Nós, enquanto artistas indígenas somos muito estereotipado, a gente é muito colocado numa caixinha, e a gente quer romper essa caixinha. A gente não quer só fazer música, só quer tocar ou trabalhar no abril indígena, no agosto indígena, só para cumprir uma pauta. Não! A gente quer estar em todos os espaços, porque somos artistas. Somos artistas. Queremos ser colocados num lugar de igualdade com as outras pessoas. Então é isso, eu fiquei muito feliz de estar participando, de ser uma das selecionadas com pessoas tão diversas, tão plurais, vários artistas massas, que eu admiro também, então para mim foi uma confirmação de que o caminho é esse mesmo, sabe?"


6. Nos últimos momentos sua carreira tem girado principalmente em torno do estado de São Paulo. Dito isso, como você enxerga as diferenças de oportunidades e valorização artistas entre SP e Pernambuco?

R: "Eu acredito muito que Pernambuco acaba sendo uma grande fábrica de artistas incríveis. Os melhores artistas nacionais, eu posso dizer assim, vêm de Pernambuco, são muitos ícones. Então, eu acho que Pernambuco é uma grande fábrica, mas a loja é São Paulo. É muito diferente as oportunidades que se tem aqui, em comparação com Pernambuco. Pernambuco tem pouco espaço para muitos artistas incríveis, então a gente precisa até ficar atento a isso em Pernambuco, para a gente não entrar numa competição entre artistas, uma rivalidade e uma desunião. Eu acho que a gente precisa se unir mais, saca? Mas eu entendo que é isso: pouco espaço, muitos artistas, um ou outro, alguém vai ter que empurrar ali e tal, então eu acho que isso é muito perigoso. Eu acho que deveria ter mais oportunidades para além das prefeituras e para além do governo, porque a gente vê que as oportunidades se abrem muito no Carnaval, Festival do Inverno de Garanhuns, São João... A gente acaba sendo tutelado muitas vezes pelo Estado. E falta iniciativa privada também para contribuir com isso. Já aqui em São Paulo tem muito investimento na cultura. Tem mais dinheiro querendo ou não. Tem muito investimento na cultura, no setor público e no setor privado. E aí eu acho que é isso. Pernambuco tem exportado artistas. E infelizmente eu não conseguia viver confortavelmente de arte em Pernambuco. Infelizmente mesmo. Mas aqui em São Paulo eu consigo. E existe também a valorização da cultura nordestina. Aqui. Galera gosta, galera quer comprar, né? E eu digo comprar porque é isso, a gente tá numa indústria, né? Querendo ou não a música é uma indústria. Então, assim, Pernambuco, como eu disse, é uma grande fábrica, é berço da cultura. Ja São Paulo carece disso, de cultura popular, cultura popular de qualidade, com fundamento. Porém a gente também não pode se rebaixar e nem se colocar como uma mão de obra barata. A gente tem que ser valorizado pelo que a gente faz e o que a gente faz é muito grande."


7. O que podemos esperar do futuro? Quais são os planos, metas e projetos que podem ser compartilhados conosco?

R: "Para o futuro, estamos trabalhando no meu primeiro álbum, chamado "Djotana", que é o meu nome indígena e que significa "ventania". Estou trabalhando na produção desse álbum com parceiros, também tentando captar recursos para botar mais para frente esse trabalho, porque como eu falei anteriormente, é muito caro fazer um álbum, então muitas parcerias estão rolando. Esse álbum vem em 2025, se dokora permitir, e vai sair com participações maravilhosas, que eu não posso dar spoiler de todas, mas eu posso dizer três participações já confirmadas: que é Jéssica Caitano, Luana Flores e Maria Konati, que é uma parenta, um indígena Mapuche. Vamos lançar agora um single que se chama "Caboclinho Puri", que é uma junção das musicalidades do meu povo Puri, do povo de Pernambuco, do Caboclinho, fazendo referência ao povo Caeté e ao Reggae. Então é uma mistura disso tudo, porque o meu povo tem uma musicalidade muito parecida com o Caboclinho, que é a dança do caboclo, os ritmos são muito parecidos e vem de uma mesma matriz, e eu tenho pesquisado essa conexão de onde vem, como é que surgiu, tentando entender tanta similaridade do Caboclinho com a Dança do Caboclo. Então através dessa pesquisa eu desenvolvi essa música, que vai ser o primeiro single lançado desse álbum. Além disso, "Djotana" vai ter releituras de músicas que eu já lancei, com a nova versão, e músicas novas também. Ainda falando do single, ele vai vir como um videoclipe em animação feito por Devaneios, por Vanessa, e por Shapi Puri, da Tchori Arte, que são ilustradoras e designers e que estão fazendo um videoclipe muito lindo em animação. E também, além do meu trabalho em si, eu ainda vou aparecer, minha carinha e minha voz, vão aparecer em trabalhos de outros artistas incríveis aí de Pernambuco, que eu não posso dar muito spoiler agora, mas vai vir coisa boa, muita produção.

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