1. Como foram seus primeiros contatos com a arte e como foi decidir seguir a carreira artística?
R: "Eu sempre fui muito ligado à cultura pop desde criança pela televisão, então via muita coisa que estava acontecendo quando eu era criança. Via muito, na MTV, Madonna, Michael Jackson, Cyndi Lauper, Gal Costa etc. Tudo que estava acontecendo eu estava lá consumindo. Eu era uma criança que gostava muito de discoteca, de música dançante, house, techno... Então, começou por aí, com essas influências. Eu via as novelas também, as atrizes, os atores, mas eu percebi que queria ser artista mesmo quando eu vi Madonna no The Girlie Show. Eu olhei e disse: 'Eu quero ser que nem ela, eu quero fazer isso na minha vida'."
2. Sendo um dos pioneiros de voguing em Pernambuco, como você enxerga a importância desta expressão artística em sua vida?
R: "Eu acho que o Vogue acabou sendo uma síntese de tudo que eu gosto, né? É moda, comportamento, dança, humor, pose, fotografia, artes plásticas, artes visuais, cinema... Acho que o Vogue tem dessas influências e eu, gostando dessas influências, acho que o Vogue fez com que eu pudesse transmitir o meu corpo, sabe? Podendo dançar e ter esse glamour, essa força que o Vogue traz. Então pra mim o Vogue, desde que eu comecei a dançar, é indispensável! Eu estou sempre vogueando o tempo todo. Sempre é vogue. Acho que nunca estou sem fazer outra coisa.
O Vogue também trouxe mais a compreensão sobre expressão de gênero, sexualidade, a decrescência de gênero e a decrescência de sexualidade - entender também as maneiras de se expressar, as maneiras de poder ser no mundo, de estar no mundo, de compartilhar com as pessoas, de estar com as pessoas, e isso é importante. O Vogue não é só uma dança urbana, mas é também como um movimento social, um movimento político de expressão e dignidade."
3. Para você, qual a importância e como você observa a inserção do movimento ballroom em Pernambuco?
R: "Ao meu ver, o vogue faz parte da cultura negra, então ele faz parte de um legado ancestral. Então, o vogue, assim como o frevo, como a capoeira, como o samba, como o rock, como o jazz, como o house, é a espada de pressão negra. É a importância de se resgatar a diáspora do movimento. Entender que a gente não está só aqui. A cultural ballroom chegar no Brasil, chegar em Pernambuco e poder se juntar junto com outras culturas que são daqui, é importante.
Não só é importante só pela expressão, mas também pela compreensão de um todo. Do que é a arte negra, do que é a negritude no mundo. Então a gente tem ligação do frevo com o vogue, do vogue com a capoeira. Enfim, a gente consegue achar as bases que organizam as danças, as matrizes que organizam o movimento. Então é importante começar a compreender também isso. Essa maneira que o vogue pode entrar na nossa cultura."
4. Como se deu a criação da House of Guerreiras, casa da qual você é mother?
R: "Em 2015, eu gravei o Faz Que Vai, com a Barbara Wagner, né, e já tem umas pessoas da cultura balroom do Brasil que já estavam falando comigo, pensando comigo e tal. Eu estava tendo esse contato, com pessoas de Minas Gerais, São Paulo que já tem contato comigo pra dizer que estavam querendo trazer algumas coisas da cultura ballroom pra Recife. Para minhas alunas de estileto, que também são as minhas amigas e minhas filhas, eu comecei a falar que iria criar uma casa e elas disseram que queriam participar. A gente começou a pensar isso juntos, já que todos nós também queríamos fazer parte da cultura ballroom. E foi ai quando eu decidi homenagear o Guerreiros do Passo, do qual também faço parte. Decidi batizar a casa como House of Guerreiras, da qual Lucilia Albuquerque é madrinha. Queria um nome que não precisasse ser mudado. Que fosse simbólico e que fizesse sentido para mim. Minhas filhas adoraram. Nem todas continuam na casa, mas uma das primeiras está até hoje. Em 2016 nos oficializamos enquanto casa."
5. Para além do voguing, você também faz parte da companhia de frevo Guerreiros do Passo! Nos conte um pouco sobre a mesma.
R: "O grupo guerreiros do passo surgiu em 2005, quando os integrantes, os fundadores, Lucélia, Eduardo, Miro e Gil, saem da Escola de Frevo do Recife e vão se encontrar na praça para continuar o frevando. E eles ficam no frevando na praça e começam a também querer criar multiplicadores. O nome guerreiros vem de uma homenagem a Nascimento do Passo, que ele falava que os pacistas que são guerreiros mesmo, eles vão depois do carnaval. Os que vão durante carnaval, eles querem aprender frevo somente para carnaval, mas os guerreiros mesmo são que ficam fazendo o frevando o tempo todo. Então eu chego em 2010 para participar das aulas depois surge o convite para dançar substituindo um integrante que estava viajando. Esse evento fez com que eu acabasse ficando também no grupo de dança. Atualmente sou professor do grupo, onde passei muito tempo tendo aula e trabalhando. Hoje sou professor do grupo, professor efetivo do grupo, além de continuar fazendo parte do grupo de dança, com o espetáculo Frevo.
O grupo mantém esse trabalho a 19 anos, com aulas gratuitas na praça do Hipódromo, todo sábado, às 15:00. Todo sábado a 14 anos estou lá, indo, sol a sol para dar aula."
6. O que você acredita que a dança pode representar para pessoas negras e/ou LGBTQIAPN+?
R: "A dança tem um papel fundamental na vida das pessoas, porque ela pode ser ritualística, social etc. Pensando em danças sociais, que a gente dança a dois ou dança com pessoas em festa, ela representa uma maneira de ser no mundo, então a dança não vai estar dissociada do que está acontecendo no mundo. Ela pode ser reformulada, ela pode ser repensada, então ela pode sim representar movimentos, seja movimento LGBTQIAPN+ ou movimento negro, porque ela está atrelada junto ao corpo que faz, o corpo que faz é o corpo que está pensando naquilo que está acontecendo com o próprio corpo e com o corpo do outro. Devemos pensar que a dança está atrelada ao fazedor, a quem faz e que quem faz se expressa, e essa expressão é que vai dando as bases que vão organizar aquilo. Então outras pessoas também vão se identificando e vão criando junto, vão somando. O Vogue é assim. O Vogue surge dessa vontade de estar no mundo da maneira legítima. Eu posso estar aqui, eu quero estar aqui dessa maneira. Então quando você pensa isso no seu corpo, você está pensando de forma política, você está pensando em representar alguma coisa, sabe?"
7. O que podemos esperar do futuro de Edson Vogue? Quais são os planos, metas e projetos que podem ser compartilhados com o público?
R: "No futuro eu espero que continue trabalhando. Gosto de trabalhar com cinema, com dança... Gosto de trabalhar com arte no geral e também gosto de dar aula. Então o que eu espero para o futuro é continuar fazendo o que eu mais gosto, que é dar aula, dançar, atuar para o cinema, atuar na a TV, estilar, posar, que é isso que eu gosto de fazer!"

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