aCena Recifense entrevista Bell Puã


E a última entrevista do ano do aCena com um nome local tem um sabor especial! Batemos um papo com uma das principais expoentes da cultura pernambucana na atualidade: a cantora, escritora e poeta premiada Bell Puã! Confira!

1. De que forma a escrita surgiu em sua vida e qual é a sensação desta arte tê-la levado a conquistas como a final do Prêmio Jabuti?

R: "Eu sempre gostei de ler poesia. Lembro que quando aprendi a ler, criança ainda, foi uma das coisas que eu mais me apeguei: as palavras rimadas. Mas escrever, eu acredito que tenha sido uma coisa mais no ensino médio. Eu acho que eu me via tão pouco nos escritores que eu só fui começar a escrever mais velha mesmo.

A sensação de ter essa arte numa final como a do Prêmio Jabuti é a de que vale a pena um trabalho com conteúdo, pesquisa séria e feito com todo carinho e a inteireza do que eu realmente sou. Foi uma sensação de muito orgulho de poder levar o estado de Pernambuco, através da voz de uma mulher negra, para um prêmio grande como esse."

2. Você ganhou bastante destaque em 2017, quando venceu a batalha de poesia falada do Slam das Minas. Dito isso, em que momento da sua vida a poesia se tornou música?

R: "Sim. Venci o Slam das Minas aqui em Pernambuco e em São Paulo eu ganhei o Slam Brasil, que foi o nacional e misto, com homens também. Eu gosto de lembrar disso para as pessoas saberem que mesmo com o macho lá competindo também, ganhamos! Mas, dito isso, a poesia se tornou música, então eu sempre gostei de compor também! Quando eu comecei a escrever, às vezes eu também compunha com melodia. Eu também toco violão, aprendi a tocar na igreja faz uns anos, então eu tinha uma noção de ritmo e de harmonia. Acredito que a composição do rap veio muito pelo fato da poesia que eu faço, de slam, ser um braço do-hip hop também. Então acho que tudo dentro da cultura hip-hop acabou me envolvendo de tal forma que foi muito orgânico para mim fazer rap enquanto e depois de fazer poesia."

3. Seja na poesia ou na composição musical, como você enxerga o papel social de suas escritas?

R: "Então, eu acredito que a minha atuação artística começa com um papel social muito forte, porque quando eu comecei a fazer poesia, eu tinha vontade de falar de questões que me incomodavam e me machucavam muito. Coisa que vi minha família passar na vida inteira, como o racismo e o machismo. Eu acho que o papel social na minha escrita acaba sendo muito sobre as minhas origens, mas também não gosto de ocupar esse único lugar. Acho que a gente enquanto artista tem que ter a possibilidade e a oportunidade de falar de tudo que quiser, inclusive de amor, de coisas boas."

4. Preparando o terreno para seu primeiro EP, você lançou, no início do ano, a faixa "Passeio". O que a faixa representou em sua carreira? Foi, de fato, uma transição para o lançamento de "Jogo de Cintura"?

R: "Ah, que lembrança boa! 'Passeio' é uma faixa que eu tenho muito carinho. Foi minha primeira love song. Nesse momento eu ainda escrevia as coisas muito focadas nesse lugar de crítica social e acabou sendo um respiro muito grande para mim fazer uma composição sobre amor, além de ser também um lugar de mostrar que eu posso falar de coisas diversas e múltiplas. Acabou sendo uma transição para o EP 'Jogo de Cintura', já que ele também vem com essa proposta de trazer assuntos mais diversos sobre a vida, sobre amor também."

5. Como foi o processo de concepção e produção do seu primeiro EP, "Jogo de Cintura?"

R: "A concepção do EP 'Jogo de Cintura' só foi possível pela aprovação no Edital Funcultura de 2022 a partir da captação da minha produtora Bola1 Produção e em parceria com os produtores musicais que foram TomBc e Marley no Beat, além da equipe de audiovisual da RUNA.

O processo de produção foi entre 2023 e o início de 2024. A gente fez uma parte no estúdio de TomBc e Marley no Beat, que fica na Iputinga, e a outra parte a gente fez no Espaço do Criatório, que fica lá em Gravatá, um espaço para residência artística, que acabou sendo muito massa também para trazer para o mundo essas músicas. O processo duro foi mais isso mesmo, trazendo referências tanto do rap como da cultura popular."

6. Quais são as principais diferenças que você enxerga entre seus trabalhos literários prévios e as composições presentes em "Jogo de Cintura"?

R: "Acho que a questão da melodia muda muita coisa, desde a forma do processo criativo, tanto do resultado do trabalho, mas acho que tem uma diferença muito grande também na forma de produzir esses tipos de arte. O processo literário é muito solitário: eu comigo, o tempo todo, ali criando. Enquanto que, para compor músicas, como rolou em 'Jogo de Cintura', acaba que ficamos do lado de outras pessoas como produtores musicais, pessoas essas que vão catando referências, testando coisas... Então eu acho que a diferença maior está nisso, no processo criativo, onde na literatura tudo é mais solitário, enquanto na música as coisas são feitas mais em conjunto."

7. O que podemos esperar do futuro musical de Bell Puã? Quais são os planos e novidades que podem ser compartilhadas com o público?

R: "Em 2025 eu estou planejando singles com referência muito forte ao trabalho de Kendrick Lamar, que é uma referência muito grande para mim, mas também trazendo as minhas questões da cultura popular, que estão muito fortes comigo, com Jéssica Caitano, que também está no EP. Podem esperar uma Bell Puã com a musicalidade e composições bem autênticas que converse com o mercado, com a indústria, mas que não abre mão de ser quem realmente é!"

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